quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Partidarização da mídia acirra fim de campanha

Veículos criticam “autoritarismo” do PT; movimentos sociais rebatem

Do Brasil de Fato

qui, 2010-09-30 17:26

Renato Godoy de Toledo
da Redação


A estratégia de ataques à candidatura de Dilma Rousseff (PT) no final da campanha gerou animosidade entre a mídia comercial, de um lado, e o governo e defensores da democratização das comunicações, de outro. Em duas oportunidades, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, criticou a atuação da imprensa no processo eleitoral. Para o mandatário, alguns órgãos de comunicação agem como um partido.

Lula chegou a ironizar a revista Veja, referindo-se a ela como “uma revista que eu não sei o nome, acho que é 'Olha', se fosse no nordeste chamaríamos de 'Zoia'”.
A resposta da mídia veio em editoriais, artigos e até em um ato com cerca de 100 pessoas em São Paulo, que ganhou manchete no jornal O Estado de S. Paulo – o único veículo até o fechamento desta edição que declarou abertamente sua preferência por José Serra (PSDB).

Neste ato, ocorrido no dia 22 de setembro, algumas personalidades como o jurista Hélio Bicudo, dom Paulo Evaristo Arns e três ex-ministros de FHC criticaram uma suposta tentativa de cercear a democracia, por meio da “volta da censura”. Por outro lado, movimentos pela democratização das comunicações e centrais sindicais realizaram um ato com mais de 500 pessoas no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, no dia 23 de setembro.


A atividade foi convocada antes mesmo de Lula realizar criticas aos meios de comunicação. Os órgãos de imprensa chamaram o ato de “chapa-branca”, “contra imprensa” e “pró-censura”. Para os organizadores, a grita da mídia contra o ato foi fundamental para o sucesso do próprio, que foi convocado apenas pela internet.
Um outro manifesto criado por juristas como Márcio Thomaz Bastos (ex-ministro de Lula) e Celso Antonio Bandeira de Mello (professor da PUC) e Dalmo Dallari (professor da USP) afirma que o Brasil vive em plena liberdade de imprensa e não há porque temer a censura.

Sem indícios

Para o sociólogo do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília (UnB), Fábio Senne, não há nada que sinalize que o governo esteja flertando com o autoritarismo e com a censura. “As declarações do presidente podem ser criticadas eventualmente pelo tom utilizado, pela postura que entenda como adequada para um estadista diante do processo eleitoral, ou, num debate de mérito, se a visão que Lula expressa sobre a imprensa é a mais correta. De forma alguma, porém, vejo ameaças concretas à liberdade de expressão deflagradas por estas declarações, ou pelo conjunto das ações do governo na área da comunicação”, afirma.

Os críticos ao tratamento do governo dispensado à imprensa evocam o PNDH-3, a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) e a tentativa de criação do Ancinav (uma agência reguladora do audiovisual) como exemplos de investidas da atual gestão contra a liberdade de imprensa. “Do ponto de vista do conjunto das ações do governo Lula para o setor, não vejo ameaças concretas à liberdade de imprensa, como argumentam alguns colunistas e associações empresarias do setor. É possível identificar, claro, equívocos importantes do governo, como foi a tentativa de expulsão de jornalista correspondente do New York Times – erro assumido por integrantes do governo. Nos demais episódios frequentemente mencionados – como o debate sobre o Conselho Federal de Jornalistas (CFJ), a Ancinav, o PNDH-3 e a realização da Confecom – o debate público foi claramente vetado ou enviesado nos grandes veículos de comunicação, e não constituem, a priori, afrontas à livre expressão”, aponta Senne.

O sociólogo compara o caso brasileiro com o que acontece nos EUA, país cujo direito à livre expressão não é questionado pela imprensa brasileira. “Têm sido muito lembradas nesse momento, como ponto de comparação, as declarações da diretora de comunicações da Casa Branca, que no ano passado acusou a Fox News de atuar como 'braço armado do Partido Republicano' e afirmou que o governo tratará a Fox 'como um oponente'. Não vimos, neste episódio, o governo Obama ser taxado de promover atentados à liberdade de expressão”, ilustra.

Para o presidente do centro de estudos Barão de Itararé, Altamiro Borges, a imprensa no Brasil goza de plena liberdade e usufrui até de uma “libertinagem”. “Não há ameaça alguma à liberdade de imprensa. Em qualquer país do mundo uma revista que colocasse a foto do presidente com um chute no traseiro [como edição da Veja de 2006] sofreria um processo. As medidas que o governo pensou para democratizar as comunicações foram travadas. Não temos nem lei de imprensa, não temos nenhuma regulamentação do trabalho do jornalista que pode ser cada vez mais precarizado. [A grande mídia] não tem do que reclamar”, opina Borges, que foi um dos organizadores do ato do dia 23.


Mudança de postura?
Para Borges, o momento atual é o de maior acirramento entre o governo e a mídia. Segundo ele, Lula só foi afirmar no final de seu mandato que a mídia age como um partido – “antes tarde do que nunca”.

O jornalista afirma que há algumas mudanças importantes no segundo mandato de Lula e há boas sinalizações para um eventual governo Dilma. “O primeiro governo foi covarde diante da mídia. Cedeu em vários aspectos, num misto de ingenuidade e pragmatismo. Exemplo disso é a escolha do padrão japonês para a TV digital e o recuo na criação de um conselho nacional de jornalismo. Já a segunda gestão tem apresentado medidas interessantes, como a criação da Empresa Brasileira de Comunicações [EBC], a convocação da Confecom e uma nova politica de publicidade, que não deixa as verbas totalmente concentradas na grande mídia. Agora, sinaliza que há mais medidas a serem tomadas nessa área midiática. Quando ele diz que a mídia é um partido político, mostra que é necessário um novo marco regulatório para a área”, conclui.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Um choque necessário

Ao entrar no Centro Cultural São Paulo o visitante se depara com as rampas de acesso. Ao desce-las, logo no primeiro andar, ele encontra um grande cartaz. E nele, a descrição: E.Co. Este é o nome da exposição que ficou em cartaz nos meses de julho e agosto.

O nome deixa claro sobre do que se trata a mostra: meio ambiente. Mais adiante, em paredes de madeiras dispostas pelo andar, diversas fotografias chamam a atenção. Sem início nem fim. Assim é a organização da exposição.

Em uma parede, imagens de 3 grupos de fotográfos peruanos que nos confrontam e interpelam. Imagens que iniciam uma ruptura com a realidade. A ficção se confunde com o real.

Em outro ambiente, espanhóis representam, através de suas imagens, a passagem da selva para a cidade grande. Observa-se fábricas, prédios e pichações. Pessoas comuns que trabalham na "cidade de gesso", Huelva. É possível notar dois grupos: os que defendem a industrialização e aqueles que lutam contra ela. Pessoas que lutam contra as chaminés que vomitam fumaça no céu da cidade.

Em uma das fotografias expostas, os espanhóis representam a revolta da população com o seguinte piche: "AKI NO AI PESCAO ESTA TODO MUERTO".

Da Alemanha, imagens chocantes. Os fotógrafos captam o sentimento através de imagens de um cemitério nuclear em risco de colapso. Para quem apenas vê, há o sentimento de impotência. E mesmo para quem tenta acabar com esse lixo, a sensação é a mesma. Ao lado do cemitério a Ilha Biquini. Moradores aparentam tristeza, solidão e medo.

Situada no Oceano Pacífico, a Ilha Biquini foi alvo do exército norte-americano. Foi lá que escolheram testar a bomba atômica. A tristeza é ainda mais visível quando se conhece a história dos habitantes da ilha. Por causa da radioatividade não podem sair de lá.

E, finalmente, Chernobyl. Cidade ucraniana é fotografada como sinônimo de castástrofe. A realidade de fato. Compreende-se o que é o vazio ao analisar Chernobyl. Cidade castigada pela maior tragédia nuclear, e que sofre até o hoje as consequências do acidente que deixou danos irreparáveis.

E assim são representados estes e mais 9 países. Brasil, Reino Unido, Portugal, México, Venezuela, Costa Rica, Argentina e Itália.

A mostra é denominada Coletiva. E.Co: Coletivos Fotográficos. Um fenômeno contemporâneo que vem se desenvolvendo como um novo modelo de representação. Os artistas provocam uma reflexão sobre o que acontece com o meio ambiente. Para isso trabalham na esfera da ação documental e social.

Com curadoria do artista espanhol Claudi Carreras, a mostra é uma união de 20 grupos de fotográfos de países diversos, da América Latina e Europa, que passam emoção e comoção ao mostrar o lado esquecido de alguns lugares.




segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Por dentro do Mercado da Lapa

À procura de porangaba, colônia, peregum, folha de fogo, chapéu de couro, capeba, acocô, mão de Deus, gervão ou embaúba? Mercado da Lapa. É lá que encontramos tudo isso e muito mais. Temperos diversos, originários de várias regiões do Brasil? também tem lá. Peixe? Não há um só corredor sem um box com pacu, pintado, barbado, piranha, e claro, o bom e velho bacalhau salgado.

Além da variedade de produtos, o Mercado da Lapa também guarda alguns personagens. Como o sr. Ari. Não tinha intensão de conhecer a história desse vendedor de peixes. Era apenas mais um entre os que gritavam "bom dia, olha a castanha, moça!", "o que vai ser hoje, dona?", "olha, olha... aqui tem tudo pra sua feijoada!".

Sr. Ari tem 59 anos. E há 5 trabalha no Mercado. Tem uma aparência cansada. Homem pequeno, magro e baixinho, franzino.

Chama os clientes ao seu box, o Lucky 82, oferecendo receitas. Se ele sabe cozinhar? "Não. É apenas truque de vendedor", diz. Com um sorriso tímido, sr. Arí diz que não tem mulher. "Não penso nem em morar junto. Tô bem sozinho. Também não tenho filhos". Aposentado, trabalha apenas aos sábados. Vender peixes foi o que sempre fez em sua vida. "É o que eu sei fazer. Só isso". Durante a semana encontra os amigos, dá voltas pela cidade e volta para casa, sozinho. "Me acostumei a viver só. Eu me viro, moça. É melhor assim".

Entre uma pergunta e outra, sr. Ari olha para o sr. Marcelo, o dono do box. "Sabe, você não veio num dia muito bom, sábado aqui é muito cheio. Bom mesmo é na semana". Sr. Ari rasga um pedaço de papel e embrulha o peixe como se fosse um presente e entrega a sua cliente, diz obrigado, e fala: "é assim, a gente tem que ser bom no que faz senão fica desempregado."

Caminha de um lado para o outro com as mãos nas costas, dá bom dia a quem passa e oferece ingredientes para uma feijoada. "Caro? mas é bacalhau direto de Portugal!", fala a um outro cliente.

Além de arriscar umas dicas de receitas, sr. Ari oferece temperos. Descreve como ficará a textura do bacalhau se cozido com leite de coco. Quem leva a mercadoria acredita no que diz.

Sr. Ari é apenas um dos muitos personagens do Mercado. Que esconde em cada canto histórias diversas e curiosas. Basta uma volta para ouvir o tintilhar dos grãos sendo despejados nos sacos plásticos e jogados na balança. Mais uma volta e percebe-se uma variedade de aromas indecifráveis.

Sair do Mercado da Lapa sem uma sacola na mão é praticamente impossível.

sábado, 11 de setembro de 2010

Loucura por um sonho

Atrás do pai, menino dirige ônibus nas ruas de São Paulo

Em Capitães de Areia, Jorge Amado narra a história de garotos de rua, independentes, que lutam sozinhos pela sobrevivência. Além disso, se divertem, brincam como criança que são e têm responsabilidades de adultos.

Assim é Buiú. Um garoto de 12 anos que vive vagando pelas ruas de São Paulo em busca de possíveis aventuras.

Diferente dos meninos de Jorge, Buiú tinha uma intenção maior ao pegar um ônibus no Terminal Tiradentes e sair dirigindo pela cidade. Seu destino era São Bernardo do Campo. Lá, pretendia encontrar seu pai, Jesus, cobrador de ônibus que deixou a família quando Buiú tinha apenas cinco anos.

Após o desaparecimento, Buiú empenhou-se em aprender a dirigir ônibus, paixão declarada, para, um dia, sair à procura de Jesus.

Buiú sempre fez muitos amigos na rua, e, nos terminais de ônibus também. Insistente, conseguia convencer todos os motoristas e cobradores a deixá-lo acompanhar as viagens de algumas linhas. Assim aprendeu a dirigir. Olhando cada movimento do motorista. E, principalmente, passou a conhecer diversas vias da cidade, ou pelo menos as mais importantes.

Quando sentiu que estava preparado e teve o destino a seu favor, Buiú saiu tranquilo e feliz pelas ruas com a certeza de onde seria sua parada naquela noite.

Em meio à loucura, e extasiado de alegria, desacreditado da malandragem, Buiú foi parado por dois policiais. Assustado, bateu em outro ônibus. Foi levado à delegacia e de lá para a Febem. Assustou-se ainda mais ao encontrar garotos como o que matou o próprio pai. Chorando, pedia para a mãe tirá-lo daquele lugar.

Passado o susto, Buiú mostrava-se feliz pelo sonho realizado. No sorriso orgulhoso, o que se via era um menino, apenas um menino.

Sua mãe o conhece bem. Ele já passou um ano fora de casa. É do tipo que ama a liberdade, que sabe o que quer. E sabe o que fazer para conseguir.

É provável que, embora tenha dito que não fará novamente, a próxima aventura vá além de uma viagem de ônibus. Para um garoto como Buiú não há limites de coragem.


...


*Matéria publicada no Agora, sem nenhuma humanização.
*Por Ricardo kotscho, ela foi tão bem elaborada que não parece a mesma.
*E, finalmente, a minha.

domingo, 5 de setembro de 2010

Propaganda eleitoral tem diversão garantida

As opções de candidatos para deputados estaduais e federais são um tanto quanto bizarras. Mas, infelizmente, é possível que muitos deles sejam eleitos. Tiririca, Mulher Pêra, Maguila, etc, etc... É uma lista extensa de pessoas que, como disse o próprio Tiririca à Folha de São Paulo, não sabe o que deve fazer, se eleito. Na Câmara dos Deputados vai faltar apenas a lona, porque o circo já está montado.


sábado, 28 de agosto de 2010

Graciliano Ramos sobre a arte de escrever


"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Bate-papo com Raphael Penteado

Após postar um link da Revista Cult em meu Facebook, Raphael Penteado fez alguns comentários. O assunto da matéria é o Governo Lula. No semestre passado, fiz uma entrevista com Raphael, e o tema era o mesmo, a situação do Brasil após 8 anos do governo petista. E, mais uma vez, debatemos a respeito disso. Achamos interessante e por isso decidimos postar em nossos blogs.

LINK: ‎"Dossiê: A Era Lula - política, economia, movimentos sociais, cultura e educação: o legado de um presidente improvável". "...Eis aqui o cerne da questão: após sete anos de “regressão política”, 83% de aprovação no Ibope não pode ser obra da divina providência."

Revista Cult » Movimentos sociais na Era Lula
http://revistacult.uol.com.br/home/2010/07/movimentos-sociais/
Site da Revista CULT

Raphael Penteado: Me parece que esse artigo ilustra bem a essência da extrema esquerda no Brasil (que inclui elementos do PT, PSOL, PCdoB, etc): um desapego e/ou um desprendimento total com a realidade. É impressionante que consigam manter viva a ilusão marxista/socialista de que um Estado forte é a solução para a desigualdade no Brasil. Um século se passou, o mundo viveu a experiência socialista, e não há um único exemplo de êxito. Eles continuam a enxergar que a resposta continua a vir de cima (do Estado, liderado por um político iluminado) e teimam em negar a essência democrática de uma solução CAPITALISTA. De duas, uma: ou um cretinismo absoluto ou um mar de burrice intransponível. O cerne da questão: meu Deus, por onde começar?
05 de agosto às 09:58

Clarisse Sousa: Oi, Raphael, não acredito que haja mais essa separação esquerda/direita. O que há na verdade é um governo que começou a lutar pelo fim da desigualdade no país, e melhor ainda, conseguiu diminuir o índice de pobreza como nenhum outro. O governo Lula pensou nos pobres. E não é porque deu "esmola" com o Bolsa Família, é porque deu àqueles necessitados o que comer. Você acha que tais partidos citados acima conseguiriam mudar a política brasileira? Eu acho que não. Acredito que nenhum governo será capaz de mudar o caminho que o Brasil segue e não há motivos para isso. O que farão, sem dúvida, é dar continuidade a essa política. É isso que todos os candidatos dizem, reparou? Ninguém fala em grandes mudanças. E não será preciso começar. O começo se deu há 8 anos. Agora, como continuar?
05 de agosto às 19:12

Raphael Penteado: Oi Clarisse. É claro que existe, mas hoje eles tem nomes mais bacanas: direita = neo-liberal; esquerda = 3a via.
Infelizmente o que há no Brasil hoje é um grande problema de percepção. Todos acreditam que o Bolsa Família que está resolvendo todos os problemas sociais no Brasil. A realidade é bem diferente. Veja, não tenho absolutamente nada contra esses programas sociais. Mesmo porque a maioria desses programas foram criados antes do governo Lula (com excepção do Fome Zero). O que critico sim é que o governo deixou de exercer critérios importantes na execução desses programas. Por exemplo, antes havia o Bolsa Escola (projeto do Cristóvam Buarque - PT, implementado no governo FHC) que dava dinheiro para as famílias só se as crianças tivessem presença na escola. Isso ajudou a diminuir muito o trabalho infantil no Brasil. O governo tirou esse critério. Resultado: o trabalho infantil nos últimos 7 anos só cresceu.
05 de agosto às 23:43

Raphael Penteado: Mas voltando ao que interessa: nenhum desses programas sociais foi responsável pela melhoria da distribuição de renda no país. Os próprios economistas do PT estimam que o impacto desses programas só explique 30% das melhoras em distribuição de renda. O que aconteceu mesmo foram os ganhos reais do salário mínimo e do crescimento da economia brasileira. E isso não é obra do atual governo! O governo votou contra os aumentos do salário mínimo. Só que o povo não entende isso. É problema de percepção. A economia atual foi construída nos últimos 20 anos. Por exemplo, hoje o brasileiro dirige Renault, Citroen, Hyundai, Peugeot, etc. porque o governo Collor abriu o mercado brasileiro. Isso aconteceu a quase 2 décadas. Mas analisar a economia de hoje e entender que isso foi construído durante 20 anos é uma análise difícil, não dá para esperar que o povo (de uma forma geral) consiga fazer essa análise. Agora, por isso mesmo meto o pau sim, em quem tem instrução, preparo, educação e continua a ignorar os fatos. Você sabe porque os candidatos dizem que vão dar continuidade às políticas do governo Lula?
05 de agosto às 23:57

Raphael Penteado Porque o Ibope fez uma pesquisa. Essa pesquisa identificou que o fator de maior impacto nas eleições desse ano é "quem vai dar continuidade às políticas do governo Lula". Mas foi essa mesma pesquisa que identificou tudo que falei acima. Ninguém fala em grandes mudanças mesmo porque o Lula também não as fez. Tenho duas grandes críticas ao governo Lula: a conivência com a corrupção e a demagogia que continua a propagar essa interpretação de que "nunca antes na história desse país..." Isso é cretinismo, eles sabem muito bem que não foram eles - porque eles não mudaram nada!! Critico muito essa demagogia porque isso reflete um partido que não tem um projeto para o Brasil, mas sim um projeto de poder.
06 de agosto às 00:12


Clarisse Sousa:
Mas você classifica o governo Lula, um governo de esquerda? Eu não acho. Desde o começo ele demonstrou que não era um "comedor de criancinhas". Apenas um líder sindical que chegou ao poder, amedrontando a elite. Concordo quando diz que o Bolsa Família não resolve os problemas socias no Brasil, acho realmente que tem muito o que melhorar. Mas você tem que concordar que é uma grande iniciativa, é um começo. Sim, foi um programa desenvolvido no governo anterior, mas foi neste que ele foi ampliado, racionalizado. Pela primeira vez, a luta contra a miséria e a desigualdade transformou-se em um problema administrativo. Os direitos sociais nunca foram prioridades. No aspecto econômico, o Brasil melhorou muito, melhorou horrores. E mais uma vez, uma continuidade da política anterior. Acho que o Lula teve sorte, !? Parece que estava tudo no forno e ele apenas tratou de servir o bolo. Agora, não entendo porquê o FHC não fez isso, só agora apareceram números como 250 bilhões de dólares de reservas externas. O Brasil, agora, é bem visto lá fora. De devedor, passou a ser credor internacional. Quanto aos candidatos, ninguém quer parecer ser inimigo de um dos governos mais populares da história do país. Os 39% de intenção de voto para Dilma na pesquisa IBOPE é, na verdade, de Lula.
07 de agosto às 20:37

Raphael Penteado (via e-mail): Primeiro, acho importante entendermos o contexto histórico. O Brasil declarou moratória duas vezes, em 1982 e 1987. Para qualquer país, isso é economicamente desastroso. O país fala para seus credores internacionais: “devo e não pago”. Eventualmente, lógico, o país tenta renegociar e pagar em outros termos. Mas isso acaba com a credibilidade externa do país, tornando o financiamento de qualquer coisa muito difícil. Sete anos depois, e com a inflação completamente descontrolada, o Brasil lança o plano Real. O Real tinha duas condições fundamentais: uma rigidez monetária com o Real atrelado ao dólar e uma melhora do desempenho fiscal. Não é só o Brasil, isso é básico de qualquer economia, o governo só tem duas ferramentas à sua disposição para controlar ou estimular a economia: monetária ou fiscal (muitas vezes uma combinação das duas). Para controlar a inflação, você aumenta a taxa de juros (política monetária) ou corta gastos do governo (política fiscal). Para estimular a economia, você faz o contrario. No Brasil, nós tínhamos um outro problema: a indexação. O Brasil atrelou o valor do Real usando suas reservas como garantia. Então quando havia pressão no mercado para forçar uma desvalorização do Real, o BC intervia e comprava Real para segurar o cambio. Só que aí pegamos todas as crises mundiais imagináveis: México (94), tigres asiáticos (97), e Rússia (98). Só que aí é que o contexto se torna importante, o Brasil havia conseguido muitos ganhos, mas a nossa credibilidade internacional não era nenhuma Brastemp. Para piorar, o clima de investimento internacional era altamente especulativo, e o investidor colocava todos os países emergentes num saco só. Não haveria porque quebras do outro lado do mundo afetassem a nossa bolsa, mas mesmo assim a nossa despencava. O investidor só aprendeu a fazer uma diferenciação muito recentemente. Então eles apostavam que o governo não ia conseguir bancar uma taxa cambial fixa (não tinha reservas suficientes para isso), aí ele apostava que o Brasil não aguentaria as pontas e apostava contra, colocando uma pressão tremenda em na taxa cambial. Em 1999 a coisa estourou e o Brasil foi forçado a desvalorizar o Real. Havia muito receio no governo que isso causasse uma volta da inflação por causa da indexação. Ninguém sabia o que ia acontecer, e o receio da volta da inflação era completamente justificável. A indexação fazia parte da cultura brasileira e ninguém sabia se a política monetária ia conseguir segurar a onda (a outra, a fiscal, praticamente nem existia ainda! A lei de responsabilidade fiscal só foi aprovada em 2000). E esse ponto eu não posso enfatizar o suficiente: o controle da inflação foi fundamental para o crescimento sustentado do Brasil e proporcionou uma melhora tremenda na desigualdade no Brasil! É isso mesmo, o controle da inflação teve um impacto social gigantesco. A diminuição da desigualdade durante a implementação do Real foi da mesma proporção da diminuição da desigualdade durante o governo Lula! Mas a desvalorização do Real também teve um impacto positivo: barateou as exportações brasileiras proporcionando um impulso para a indústria brasileira, mas principalmente para os agros-negócios. Isso rendeu muitas divisas para o país. Ah, e vale lembrar que as crises não pararam por aí: Nasdaq em 2000 e 11 de setembro de 2001 (teve um impacto enorme na economia mundial).

Agora, o governo atual. O que foi exatamente que o Lula fez que resultou na bonança que estamos vivendo hoje? Que política fiscal ou monetária que ele implementou? Qual foi o passe de mágica? NENHUM. NADA. Alguém até poderia argumentar que os aumentos dos gastos sociais e do salário mínimo estimularam a economia. E com certeza tiveram um papel importante. Mas essas medidas estimulam o mercado interno! Isso não explica os 250 bilhões de dólares em reservas externas. Muito pelo contrario, o estimulo interno da economia impulsionaria as importações, reduzindo as reservas brasileiras. Ou seja, essas medidas não explicam o crescimento da economia brasileira. O impulso mesmo foi a desvalorização do Real que proporcionou um impulso enorme para as exportações brasileiras. Fora que arrumamos a casa e o Brasil (principalmente o setor privado) conseguiu financiamento muito barato lá fora. E o contexto (esse dito cujo de novo) mundial foi várias vezes melhor. O mundo cresceu muito. E o pior, o Brasil cresceu menos!! Nos últimos 7 anos, o Brasil só cresceu acima da média mundial duas vezes!! Isso significa que poderíamos ter crescido muito mais. E se o Lula deu sorte? MUITA! Você se lembra o que estava acontecendo no mundo antes dessa última crise eclodir? Barril de petróleo a US$150, escassez de comida em vários países... o cenário era de INFLAÇÃO. Só que a crise atual jogou um balde de água fria em tudo. E o Brasil estava e continua a estar em um cenário de inflação acima da média. Lembra o que eu falei sobre estimular a economia (você faz o contrário)? Ou seja, o aumento dos gastos públicos que estava a beira de causar a inflação a subir muito, foi exatamente o que ajudou a sair da crise mais rápido. Mas, voltamos a crescer já com a inflação em alta. Só nos primeiros 7 meses do ano, o índice de inflação já é de 4%, quando a meta do BC para o ano inteiro é de 4,5%!! Isso é gravíssimo (mesmo que a imprensa não faça muito estardalhaço). Voltar a deixar a inflação a subir muito seria um retrocesso muito grande. Essa história do Brasil sair de devedor e ser credor é muito bonitinha. Só que os fatos enganam. O governo deixou de buscar financiamento lá fora e passou a se endividar aqui mesmo. Nos últimos 7 anos, a dívida pública praticamente dobrou. É um fato importante, mas também é importante analisar o que está por trás disso.

Com relação ao governo Lula ser de esquerda, disso não há dúvida: é sim. Só que o Lula fez um governo de centro-esquerda (igual ao do FHC). O problema é que no Brasil o debate político é sempre de centro-esquerda versus extrema-esquerda. Esse papo de elite versus classe trabalhadora é um conceito antiquado e problemático. Como já disse – a extrema-esquerda continua a remeter os seus argumentos a um mundo onde Lênin e Marx são contemporâneos. Não é possível que continuem a enxergar um mundo através desse prisma. O mundo mudou e eles ainda não perceberam. Isso acaba prejudicando muito o debate político porque o Brasil se beneficiaria muito mais de um debate de centro-esquerda versus centro-direita; como é no resto do mundo – principalmente no mundo desenvolvido onde os índices sociais dão de dez a zero nos nossos.

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Gostaria de agradecer ao Raphael, Economista e Cientista Político, pelos comentários. Discussões como esta nos enriquece, sempre.