sábado, 3 de março de 2012

Obra inédita de Saramago mergulha no mundo do escritor português

Juan Cruz
El PaísEm Madri (Espanha)



1953. Esse homem, José Saramago, era um trabalhador de muitos ofícios; e era, como seu avô, como seus pais, como os homens e como as mulheres de Azinhaga, o povoado português em que havia nascido em 1922, uma pessoa silenciosa e sutil, em cujo interior habitavam os dramas que vivia e aqueles que imaginava por trás das pequenas moradias ou dentro dos edifícios altos.
Já está em Lisboa, trabalha. E escreve; e esse caráter concentrado esconde um poeta, e um romancista. Depois será muito conhecido, chegará a prêmio Nobel, mas nesse momento acaba de terminar uma novela, seu primeiro livro, e o intitula "Claraboia". Leva-o a uma editora, deixa ali o manuscrito e volta a seu afazer lento e melancólico, no meio mais hostil possível para a convivência e para a imaginação: o Portugal da ditadura de Salazar. Dedicou-se a esperar uma resposta... e esta só chegou em 1989, quando ele estava envolvido em um novo livro, "O Evangelho segundo Jesus Cristo".
1989. Durante mais de 40 anos, Saramago, jornalista, escritor agora de sucesso, havia mantido um silêncio pertinaz, dedicado a seus diversos ofícios, mas marcado por aquele "silêncio doloroso, indelével e de décadas", como diz Pilar del Río, sua mulher, sua tradutora, a presidente da Fundação José Saramago, no prólogo do livro que vem à luz, por fim, em espanhol, português e outras línguas, pois o manuscrito apareceu finalmente, e exatamente nesse ano decisivo (para ele, para sua literatura) de 1989...
A editora à qual o tinha enviado descobriu o manuscrito em uma mudança; de maneira muito comovente, Pilar del Río, que o conheceu nessa época, conta no prólogo desta edição (publicada pela Caminho em Portugal, Alfaguara na Espanha) como Saramago recebeu a notícia: estava se barbeando, e com o rosto ainda ensaboado pegou o telefone que tocava. Ofereceram-se para editá-lo naquele momento, é claro, mas ele estava envolvido em outra história, nem sequer demonstrou interesse, já com o manuscrito na mão, em recuperar a iniciativa, dá-lo a outra editora...
"O Evangelho..." Estava escrevendo "O Evangelho segundo Jesus Cristo", um romance que, literária e politicamente, seria decisivo para José. O governo português o repudiou, decidiu impedir que participasse de um prêmio europeu porque o declarou no mínimo irreverente. Para Saramago aquele foi um duro golpe moral, que finalmente o levou a seu retiro do ruído mundano, com Pilar, em Tías, em Lanzarote...
Depois refez, ao longo dos anos, sua boa relação com seu país, e ali foram espalhadas suas cinzas, na Lisboa de "Claraboia", quando morreu no final da primavera de 2010. Já era, na hora de sua morte, depois de muitos anos de vida literária fértil e honrada, dedicada à literatura e ao compromisso, um dos escritores mais célebres do mundo, e dos mais requisitados.
"Claraboia". Mas o manuscrito não havia sido publicado. Pilar del Río diz, nesse prólogo do livro que aparece esta semana, que a literatura é muitas vezes um soco contra a morte. E por isso revive "Claraboia", como uma homenagem a Saramago e a sua literatura; o livro constitui, diz sua editora espanhola, Pilar Reyes, "um presságio do imenso escritor que Saramago seria"; é uma novela na qual "se percebe sua visão desacreditada do mundo". "Aqui há crítica social, crítica à família como instituição. Há um belo diálogo final entre o sapateiro e o jovem que chega", salienta Reyes. Referindo-se à identidade dos personagens, arquétipos de Saramago que de algum modo se conectam com o drama "História de uma Escada", que Antonio Buero Vallejo estava escrevendo contemporaneamente na Espanha, Pilar Reyes conta: "Arrisco-me a pensar que quando Saramago escreveu 'Claraboia' era como o jovem Abel, mas aspirava a ser como o velho e sábio sapateiro".
Lisboa. É uma novela da Lisboa pobre, habitada por "uma coleção de homens de poucas palavras, solitários, livres, que necessitam do encontro amoroso para romper, sempre de forma momentânea, sua forma concentrada e introvertida de estar no mundo". É o que escreve Pilar del Río, e ela sabe bem de que caráter está extraindo essas conclusões, do homem que foi seu companheiro de toda a vida. Pilar del Río diz no final do prólogo que deu à edição, tantos anos depois, que o manuscrito foi fonte da melancolia que manteve Saramago em silêncio antes de abordar, finalmente, uma carreira que o levou ao Nobel: "'Claraboia' é a porta de entrada para Saramago e será um descobrimento. Como se um círculo perfeito se fechasse. Como se a morte não existisse". Escrever para deter a morte, dizia Saramago; ler para continuar impedindo-a, pois.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves



Extraído do: Uol Mídia Global

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

OS JORNAIS - Rubem Braga

Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:

– Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, bola confusa, onde aconteceu unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que notícia. (...) O jornal nunca publica uma nota assim:
Anteontem, cerca de 21horas, na Rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto
Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, de 23 anos de idades,
aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma
lâmpada, para abraça-la alegremente, dando lhe beijos na garganta e na face, culminado em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: ‘Meu amor’, ao que ele retorquiu: ‘Deolinda’.(...)”
A impressão que a gente tem, lendo jornais – continuou meu amigo – é que “lar’ é um local destinado principalmente à prática de “uxoricídio”. E dos bares, nem se fala.
Imagine isto: “Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à Rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou na bar Flor Mineira, à Rua Cruzeiro,524, em companhia de seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambas entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joça de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigo a, Joça manifestou desejo de sentar-se à mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda essa despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia.(...)”
E amigo: Se um repórter redigir essas duas notas e leva-las um secretário de redação, será chamado do louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...

In: BRAGA, Rubem. A borboleta amarela. Rio de Janeiro: Record, 1980, p. 74 - 76

domingo, 8 de janeiro de 2012

Jornalismo literário - sim, é possível


Bairros de classe média abrigam cracolândias privês
Traficantes alugam apartamentos e casas na Vila Mariana, Paraíso e Bela Vista para receber viciados
Rafael Andrade/Folhapress
Cachimbos de crack
Cachimbos de crack

AFONSO BENITES
DE SÃO PAULO


Em um espaço do tamanho de uma perua Kombi, seis homens dividem três cachimbos de crack feitos com antenas de TV e latinhas de alumínio.
Cinco deles estão sentados no chão. São iluminados por um lampião que contrasta com a janela de vidros escurecidos. O outro está em pé. Observa a cena ao lado da porta. Ali, não há móveis, tapetes, tampouco cortinas.
Passa das 16h de uma sexta-feira nublada em São Paulo. O ambiente descrito acima poderia ser em uma rua da cracolândia, na região central da cidade, mas não é.
Trata-se do interior de um apartamento de classe média na Bela Vista, a poucas quadras de um dos mais famosos corredores gastronômicos da metrópole, a rua Avanhandava. Lá, usuários de crack alugam a sala, o quarto e a cozinha com um único propósito: fumar a droga.
Com três celulares no bolso, um senhor cabisbaixo, aparentando ter 60 anos, era o responsável pela venda das pedras e também pelo aluguel do imóvel. Preço: R$ 10 (a pedra), mais R$ 10 pelo espaço usado para o consumo.
Antes mesmo da operação da Polícia Militar, que cercou a cracolândia na semana passada, a Folha percorreu, nos últimos seis meses, bairros como Vila Mariana, Bixiga, Paraíso, Penha e Bela Vista.
Nesses locais, a reportagem encontrou casas e apartamentos onde funciona um esquema até então desconhecido das autoridades, as cracolândias privês.
Dentro do apartamento da Bela Vista, o cheiro, uma mistura de tabaco, fumaça, óleo de lampião queimado e suor, é forte. Dois jovens estão alucinados. Acabaram de fumar a terceira pedra do dia. Entreolham-se e parecem apavorados, sem motivo aparente.
Um acaba de dar seu primeiro trago. Os outros três observam. Eles fumam cigarros. Esperam a vez para terem a sensação que tanto aguardaram após uma manhã inteira de trabalho em uma loja de informática ali perto.
As cracolândias privês são extremamente lucrativas e seguras para o criminoso. Ele ganha duas vezes: na venda da droga e na locação da área.
Para o usuário, a maioria homens de classes baixa e média, com idades entre 18 e 35 anos, de diferentes profissões, é algo discretíssimo.
Nesses ambientes, ele consegue fugir dos olhares de reprovação de moradores e também do controle policial.
Para entrar nesse submundo, é preciso ser apresentado por algum conhecido do traficante. Deve-se seguir a principal exigência do local, só consumir a droga vendida ali.
"Fique esperto, aqui não entra pedra [de crack] de outro lugar", alerta o traficante.

LUZ DE LAMPIÃO
Folha visitou cinco imóveis, entre casas e apartamentos. Em dois deles, a reportagem entrou acompanhada de um usuário, em tratamento, que conheceu na cracolândia enquanto apurava outra história. Ele só aceitou apresentar o repórter às cracolândias privês porque diz estar indignado com a quantidade de jovens viciados na cidade.
À primeira vista, por fora, não é possível perceber que em qualquer um desses cinco lugares haja venda e consumo de drogas lá dentro.
Os apartamentos, na Bela Vista e no Bixiga, são iluminados por lampiões. Possuem pequenas brechas nas janelas, para não intoxicar quem está trancado lá. As portas permanecem quase o tempo inteiro fechadas.
Para ter acesso a eles, é preciso subir dois lances de escadas. Na sequência, deve-se comprar a "pê" (pedra de crack) vendida na própria escadaria e pedir que o vendedor autorize a entrada -vale registrar que o repórter não comprou a droga.
Já as casas, ou estavam abandonadas e foram invadidas ou haviam sido alugadas pelos traficantes por preços baixíssimos por conta de seu mau estado de conservação.
Elas estão na Vila Mariana, Paraíso e Penha. Os muros têm mais de três metros de altura. Os portões não têm brechas, o que impossibilita que alguém, do lado de fora, observe o que acontece ali.
A casa da Vila Mariana não é imunda como os cortiços fechados pela operação da polícia no centro paulistano.
A morada é simples. Fica em uma rua bem arborizada, próxima de um posto de gasolina, rodeada por prédios residenciais. Dentro dela, poucos móveis. Uma mesa e duas cadeiras na sala, onde ficam o "patrão" ou seu subordinado. Ao todo, são 11 cômodos improvisados, transformados em quartos, coletivos ou individuais. São divididos por finas paredes de madeira compensada.
Há dois tipos de cracolândia privê. Nos apartamentos, o usuário compra a pedra com o traficante e a consome em um dos cômodos.
Na outra, vive no lugar, chamado "mocó". Pode tomar banho, comer, dormir. O valor varia conforme a forma de pagamento. Adiantado em dinheiro, R$ 210. Se for pagar no fim do mês, R$ 300.

Extraído do: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/18915-bairros-de-classe-media-abrigam-cracolandias-prives.shtml

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sorrisos!


As dificuldades nem sempre representam grandes problemas. Ao contrário, é preciso ser cauteloso, paciente e enxergá-las como um meio para o aperfeiçoamento daquilo que se pretende desenvolver com maestria. Assim foi o meu 2011. Nem tudo ocorre como planejamos, mas isso não significa que devemos desistir. Mudam-se os percursos, mas o destino pode ser o mesmo. Aprendi a dobrar esquinas e caminhar por vias que antes jamais imaginei ter de passar. O ano que termina me deu o melhor presente. Um sonho se realizou e, agora, sou uma jornalista!  

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A alma encantadora das ruas


Google imagens

"Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue..."

Livro do brilhante jornalista literário João do Rio.

sábado, 10 de setembro de 2011

Hostels organizam excursões para levar turistas ao mais famoso funk carioca

Os albergues do Rio de Janeiro oferecem passeios ao Cristo Redentor, Pão de Açúcar, trilha na Pedra da Gávea, Floresta da Tijuca, entre outros. Porém, é o “Favela Funk party”, no Castelo das Pedras, que mais chama a atenção.

Às 23h, aos domingos, os turistas são levados por vans ou micro-ônibus até o local do ‘pancadão’. O preço do passeio é R$ 60, incluso a passagem e a entrada no Castelo. No meio do caminho, uma parada em um posto de gasolina e o aviso: “o Castelo das Pedras pertence à milícia e por isso não é permitido entrar com nenhum tipo de droga”.

O Castelo das Pedras fica na favela pacificada Rio das Pedras, Estrada de Jacarepaguá, na Barra da Tijuca. Lá, os turistas ocupam os 15 camarotes no andar superior. Devido aos preços baixos, os balcões dos bares ficam completamente ocupados. Cerveja por R$ 2. A entrada custa R$ 3 para os homens, mulher é vip. A casa comporta até 6 mil pessoas e, por isso, está sempre muito cheia. Na pista, os homens são maioria.

Nas coreografias, a sensualidade dá lugar à vulgaridade, presente também nas ‘músicas’ - o sexo predomina. A letra do funk mixado na mesa do dj impressiona, assim como o movimento de tremer o abdome e o quadril e descer até o chão praticado pelos mais experientes. A chamada “surra de bunda” - quando uma mulher dança sobre o corpo do homem, aponta e bate com as nádegas na cara dele, que mais parece um ato sexual e não um passo de dança - leva o público (maioria masculino, vale lembrar) à loucura quando vista no palco. Os turistas mais curiosos e à vontade não se intimidam e participam da dança.

A noite do Castelo das Pedras encerra às 4h. A casa ainda está cheia quando o som acaba e as portas se abrem. Em frente, uma multidão permanece nas estreitas ruas e, aos poucos, se dispersa. Os turistas, guiados pelos motoristas e organizadores do passeio, são conduzidos de volta aos hostels.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Sombra sem luz

Um olhar triste, solitário. Cabeça inclinada para baixo. Aparentemente, ela não consegue reerguer-se, enxergar acima do nariz, mas sempre por baixo dele. Como se algo o puxasse para o chão, chamasse sua atenção o tempo todo. Como um cachorro perdido, que sente falta do dono sempre tão carinhoso. A coluna é curva - como naquele desenho - e parece empurrá-lo ainda mais para baixo. Cabelos encaracolados, negros, sujos, quebradiços.

As diversas rugas no rosto tanto podem demonstrar o longo tempo de vida quanto podem ser resultado de um tempo de agruras. Barba mal feita. Não mal feita como fazem os garanhões - “puro charme”, mas mal feita como se cada pelo tivesse sido arrancado com as unhas, e que alguns - grande maioria - elas não conseguiram alcançar, foram vencidas pela velhice deles. Embora fracos, sem um sabonete, que seja, os pelos são fortes. Fortes no sentido de que suas raízes, na derme, têm mais forças que as unhas das mãos, que não possuem nutrientes necessários para que sejam capazes de destruir, um a um, os invasores da pele do rosto que um dia foi lisa e bem tratada.

Roupas escuras. Se tinham cores, já não é possível vê-las. Numa escala de cinzas, o branco não aparece. Mas o preto, sim. Tanto em seus trajes quanto em sua vida sem luz, esquecida. O velho cobertor rasgado, maltrapilho, com as lãs que fogem das poucas costuras existentes, envolve os braços nus. Pois apenas os ombros, e o tronco, são escondidos por um pano que, na escala de cinzas, está entre o cinza claro – já que não há branco – e o preto, aquele mesmo preto presente em sua vida. O que parece ser uma bermuda se mistura com o que se pode chamar de camiseta. Por causa da falta de cores, tornam uma peça única.

Pernas de fora. Algo em seus pés pode ser classificado, já que cobre algumas partes deles, como um tênis. Sim, é possível perceber pelas cordas soltas que se movimentam a cada passo que ele dá, e pelas “línguas” que se desprendem do dorso magro. Mais uma vez, a tal escala de cinzas.

Um pedaço de pão. Numa manhã fria em São Paulo ele só queria um pedaço de pão. E esperava, incansavelmente, como um cachorro que aguarda, ao lado da mesa, um pedaço de carne. Ele queria apenas ser notado, por isso ficou na porta. Mesmo assim, era transparente. Não tinha cores. Ninguém o enxergava. Ele não falava, ele não pediu o pedaço de pão. Para quê falas quando a imagem grita? Grita. Grita. Grita, sem parar. E os surdos não têm “aparelho”, não podem ouvir. Não escutam o quanto ele clama por um pedaço de pão. São 11 horas da manhã de um domingo de sol que não aquece. E ele insiste. Não pode sair enquanto não destruir aquilo que o extermina por dentro. Precisa alimentar o ogro em seu estômago para que consiga ter forças suficientes nas unhas para arrancar os pelos de seu rosto.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Por um instante apenas

Sobe a escada rolante, não como de costume - às pressas - mas, lentamente, com as mãos no corrimão, em pé, à direita. Enquanto isso, repara nos rostos, expressões, que descem. Um leva a mão à cabeça, sorri e desliga o celular; outro gesticula, enquanto fala sem parar; outras duas, atentas, fixam o olhar na escadaria, mas não escondem a atenção às palavras do moço palavreador entre elas.

Mais acima, um grupo inicia a descida. Cabeças baixas, sorrisos tímidos, conversas paralelas – ela não entende. Frustração. Pois o melhor de estar nos vagões do metrô, por exemplo, é poder ouvir o papo alheio, já que o tempo entre as estações não permite o deliciar-se com várias páginas do livro. Em meio à empolgação, ao delírio, a cada frase lida, o maquinista anuncia a próxima estação – é justamente a que se deve desembarcar.

Enxerga a grande avenida. Frio. O vento gélido torna os olhos úmidos e os lábios secos. Os cabelos voam, enquanto o casaco preto é apertado pelas mãos nos bolsos sobre o corpo. Olha para um lado, olha para o outro, não o vê. Estranho. Ele não costuma se atrasar. Entra novamente para o aquário de vidro. Para. Consegue enxergar tudo e todos. São muitos. Percebe os diversos olhares, as demonstrações de sensações ao entrar ou sair. Os risos e os choros. Seus olhos se movem cada vez mais rápido, e mesmo assim não consegue acompanhar, se perde.

Mais uma vez, olhar fixo na escada. Cinco minutos. Dez minutos e ela reconhece uma pontinha da blusa verde entre as milhares de pretas, vermelhas, azuis, brancas. Uma olhadela no corrimão e uma mão com dedos saltitantes, ferozes, também é reconhecida. Passam as blusas pretas, brancas, azuis, vermelhas... eis que a verde o traz. Um sorriso. Dois. Um abraço. Nenhuma voz. Nenhum ruído. Sentem, ambos, o pulsar dos corações. Por um instante parecem um só, as batidas se igualam e, assim, tornam-se únicas. Únicos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

uma Reportagem!

06.06.2011

Em vilarejo japonês, a dor de abandonar a casa é maior que o medo da radiação

DER SPIEGEL
Cordula Meyer


Os níveis de contaminação no vilarejo japonês de Iitate, nas montanhas, são mais altos do que em algumas partes da zona de exclusão de Tchernobil. Sua evacuação tem sido um processo doloroso para os moradores – e muitos têm mais medo de mudar do que da radiação.
Por que ela não percebeu nada? É uma questão que preocupa Mieko Okubo. Por que ela não viu os sinais?
Se ela tivesse prestado mais atenção, talvez Fumio, seu sogro, ainda estivesse vivo hoje. Ele estaria sentado com ela à mesa, olhando para suas plantações de arroz através da porta aberta da varanda, como havia feito durante anos.
“Nós temos de deixar Iitate?”, perguntou Fumio em 11 de abril, quando a rede de televisão NHK reportou que o vilarejo provavelmente seria evacuado.
“Se eles dizem isso na televisão”, ela mesma respondeu prontamente.
“Nós temos mesmo que ir?”, perguntou Fumio de novo, e sua nora não tinha pensado nada sobre isso.
Mieko Okubo tem cabelos pretos finos e curtos, mãos miúdas. O cinzeiro à sua frente está cheio com pelo menos uma dúzia de bitucas de cigarro, longas e finas. “Como no mundo eu não consegui reconhecer o quão importante essa questão era para ele?”, ela se pergunta hoje.
Ela se culpa por não ter percebido as pequenas coisas: como ele se sentava o dia inteiro, todo encurvado e não ficava ereto como costumava ficar, que ela não percebeu quando ele não tocou no frango ou nos vegetais no jantar; e não reagiu quando ele parou de responder a suas perguntas.

Por que um homem de 102 anos precisa sofrer?
Na manhã seguinte, Mieko acordou às 5h para preparar o café da manhã, como sempre. Quando ela não ouviu nenhum barulho de seu sogro às 8h, ela chamou: “o café está na mesa”.
Então ela abriu a porta do quarto dele. Viu o tatami no chão, estendido de forma elaborada como se fosse um dia especial. Então viu seu sogro. Fumio Okubo havia se enforcado em seu quarto. Ele tinha 102 anos.
Okubo passou sua vida inteira em Iitate. A mulher com quem ele tinha se casado aos 17 morreu 80 anos depois. Ele fez sua primeira viagem para a capital, Tóquio, a 250 quilômetros dali, com um grupo de terceira idade. O que seria ganho ao evacuar um homem dessa idade?
Logo depois de sua morte, Mieko Okubo amaldiçoou a TEPCO, operadora da usina nuclear de Fukushima Daiichi, a companhia que matou seu sogro. Agora ela chora baixinho e pergunta: “por que um homem de 102 anos precisa sofrer?”
Nos dias seguintes às explosões dentro dos reatores de Fukushima, o vento carregou nuvens de radiação na direção noroeste, até as montanhas em volta de Iitate, cerca de 40 quilômetros de distância da usina. As pessoas que trabalhavam nas plantações no momento pouco sabiam dos perigos no céu. Ninguém as havia alertado.
Mais tarde, as autoridades mediram níveis de radiação de até 45 microsieverts por hora em Iitate. Isto equivale a várias vezes o nível que levou à evacuação em Tchernobil. Nenhum especialista hoje questiona a decisão de evacuar o vilarejo.

Perda da sensação de segurança
Iitate é cercado por florestas de pinheiro e cedro japonês, as montanhas chegam a mil metros de altura. No verão, aventureiros armam suas barracas ao lado das águas limpas de um lago na montanha. Durante gerações, o povo da região trabalhou durou para sobreviver da terra. Para os fazendeiros e artesãos de Iitate, a perda não pode ser medida em microsieverts. Os moradores de Iitate estão perdendo seu lar, e uma sensação de segurança que nunca recuperarão.
Numa sala superlotada do piso térreo da prefeitura, uma equipe liderada pelo gerente de resposta a desastres Shuichi Sato está tentando organizar a mudança dos moradores locais. “Em 22 de abril, o governo em Tóquio anunciou que as pessoas de Iitate deveriam evacuar dentro de um mês. Mas eles não disseram nada sobre como isso deveria funcionar”, reclama Sato.
Ele e sua equipe passam a maior parte do tempo procurando apartamentos. Antes do desastre de Fukushima, havia pouco menos de 7 mil pessoas morando em Iitate; agora há cerca de 3 mil. E como as vítimas do terremoto e do tsunami, além dos moradores de outras partes das áreas restritas já receberam moradias de emergência, quase não há apartamentos disponíveis em toda a região.
Mulheres grávidas e famílias com crianças pequenas foram evacuadas num domingo há duas semanas, seguidas por famílias com crianças em idade escolar. Sato espera que todas as famílias com crianças deixem o local em breve. Os moradores remanescentes deverão deixar suas casas até o final de junho. Sato, que não tem o poder legal para obrigá-las a sair, diz: “esperamos que elas cooperem”.

De reunião em reunião
Um cordão da polícia balança em frente à entrada das escolas. O centro comunitário está fechado. O único supermercado na cidade continua aberto, embora algumas das prateleiras estejam vazias. Poucos trabalhadores da construção estão alargando uma parte de uma rua do vilarejo, embora logo ela não seja mais usada. Um sinal de imobiliária continua pregado na frente de uma casa de família nova e cinza: 8 milhões de yens (US$ 100 mil).
“Essas pessoas nasceram aqui. É seu lar”, diz Sato. “E nós não sabemos nem dizer quando elas poderão voltar.” Ele está usando um jaleco de cor suave com cartões de identidade pendurados num cordão azul em seu pescoço. Ele corre de uma reunião para a próxima, e mesmo assim consegue tempo para atender às cerimônias de despedida que estão sendo realizadas em todo o vilarejo.
Antes do desastre, Iitate havia enfrentado o mesmo destino que muitos vilarejos japoneses: seus jovens havia ido embora para as cidades, deixando os idosos para trás. Em resposta, a cidade organizou festivais de vizinhos, desenvolveu a carne bovina local para se tornar uma marca reconhecida e criou mais empregos para jovens.
Iitate foi recentemente admitido numa associação dos mais belos vilarejos japoneses. O lema da cidade é “Madei”, ou “Ser Consciente”, e seu símbolo mostra duas mãos carregando um coração. Os moradores locais não trancam suas portas à noite.
Agora a crise nuclear criou rugas profundas no rosto amigável do prefeito de Iitate, Norio Kanno. Seu cabelo está bagunçado e seu jaleco coberto de óleo. Quando Kanno é questionado para citar sua decisão mais difícil desde o início da crise, ele diz: “todos os dias desde então são os mais difíceis. Afinal, sou responsável por todos no vilarejo.”

Decidindo ficar
Como prefeito, Kanno trabalhou duro para convencer os jovens a ficarem em Iitate. Agora ele está furioso com o governo em Tóquio. “Eles dizem: desde que as pessoas estejam protegidas da radiação, tenham um telhado sobre suas cabeças e comida suficiente, tudo está bem”. Mas as pessoas em Iitate sentem-se conectadas a suas casas e ao vilarejo que chamam de lar, diz eel. “A TEPCO é responsável pela perda deles”, diz o prefeito.
O governo japonês está aparentemente ansioso para evitar que essa raiva chegue aos ouvidos públicos. Durante a entrevista, um funcionário do poderoso Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) apareceu de repente. Kanno ficou em silêncio no meio de uma sentença, e depois foi tirado dali pelo homem do METI.
Mas o METI não pode silenciar todos em Iitate. Kayoko e Hideyoshi Hasegawa, por exemplo, fizeram suas vidas como criadores de gado leiteiro. As pastagens brilham sob a névoa às 5h15 da manhã, enquanto Hideyoshi enrola feno numa grande bola, coloca-a num carrinho de mão e a distribui para suas 24 vacas. Os animais estão magros, agora que não têm recebido ração concentrada há algum tempo.
A mulher de Hideyoshi lava cuidadosamente cada teta das vagas com um pano limpo e água quente, e então às conecta à máquina de ordenha. Depois que as vacas são ordenhadas, ela simplesmente abre a torneira e deixa o leite fresco fluir para o dreno. “As vacas usam seus próprios corpos para produzirem mais leite, diz ela, com lágrimas nos olhos. “E então jogamos tudo fora.”
Com a radiação tóxica pairando no celeiro e em seus pastos, os Hasegawa não podem vender o leite. Agora eles esperam ser capazes de pelo menos encontrar alguém para matar suas vacas. “Então alguém as matará para nós. Nós mesmos matarmos e enterrarmos seria demais para nós”, diz Kayoko.

Poucos motivos para ter esperança
Uma de suas filhas encontrou um apartamento de dois quartos para o casal na cidade de Fukushima. Hideyoshi Hasegawa planeja visitar a fazenda uma vez por semana para cuidar das coisas. Ele espera que a família seja capaz de retornar depois de dois anos, embora tenham poucos motivos para ter esperança. O césio 137 nas terras da fazenda têm uma meia vida de 30 anos.
O pai de Hideyoshi Hasegawa plantou um jardim de bonsai na fazenda da família, completo com um lago para carpas. O homem de 84 anos sobe numa escada dobrável para podar a próxima árvore. “Não deixarei este lugar”, diz ele, “nem mesmo se ameaçarem me matar”.
Ele pretende seguir o caminho dos 107 moradores do lar de idosos de Iitate. O prefeito conseguiu permissão para que eles ficassem. Ele argumentou que os idosos mal precisam sair de casa, que eles estão bem protegidos da radiação dentro do prédio e que removê-los à força de seu ambiente os deixaria doentes imediatamente. As enfermeiras e funcionários do asilo terão de viajar para o que se tornará uma cidade fantasma. Para qualquer outra pessoa que decidir ficar, o motorista do caminhão de leite continuará levando os suprimentos básicos para o vilarejo uma vez por semana.
O asilo foi construído de acordo com “Madei”, com um custo de mais de 20 milhões de euros. Ele é aquecido com bolinhas de madeira, o que supostamente é bom para o meio ambiente e para o futuro.
Yukie Niigawa, de 29 anos, via um futuro para seus filhos em Iitate. Ela está segurando sua filha pequena, Kurumi, nos braços. A menina nasceu em 17 de março, seis dias depois do terremoto. Niigawa ainda está lá com seus quatro filhos porque ainda está se recuperando do parto. Sandálias Croc coloridas estão alinhadas perto das sandálias da Hello Kitty de Niigawa na entrada de seu apartamento.

Perder o lar
O nível de radiação é alto até mesmo em sua sala de estar: dois microsieverts por hora, mais alto do que em muitas partes da área restrita. A agulha do contador Geiger levanta rápido para oito microsieverts do lado de fora. Niigawa só deixa seus filhos saírem de casa uma hora por dia – e só com botas, chapéus e máscaras. Ela é uma mãe solteira.
Depois de procurar na internet, Niigawa encontrou uma casa pequena para sua família na cidade de Fukushima. O governo pagará o aluguel dos refugiados da radiação.
Mas o que ela fará lá? Até agora, Niigawa sobrevivia alugando as plantações de arroz da família para agricultores locais. Alguns pagavam em yens enquanto outros pagavam em arroz. Mas agora, quando a mãe solteira coloca seus filhos na cama à noite, ela costuma ficar acordada pensando em como alimentará seus filhos. Ela já guardou as certidões de nascimento e o álbum de fotografias das crianças numa caixa. Que também contém uma placa de madeira em homenagem a seu pai, que morreu em janeiro. “Nós não sabemos se voltaremos para cá”, diz ela.
Vinte anos depois de Tchernobil, a ONU publicou um relatório amplo sobre a saúde dos moradores retirados da área de restrição de lá. De acordo com o relatório, as pessoas ficaram traumatizadas pela perda de suas casas e pelo medo dos danos da radiação. Acreditando que estão fadados a morrer, muitos bebem e fumam em excesso.
Trabalhadores da organização de ajuda Heart Rescue estão fazendo uma pausa num estacionamento na prefeitura, usando macacões de proteção e máscaras. Preocupados com as pessoas que estão atrás da zona de evacuação, eles andam pelos vilarejos vazios e questionam todas as pessoas que encontram. Eles perguntam sobre sua ansiedade, acessos de choro, álcool e pensamentos suicidas.

Iitate está esperando
Muitas pessoas exibem sinais de síndrome do estresse pós-traumático, diz Bansho Miura. “Especialmente os agricultores jovens. Eles não sabem para onde irão”. Alguns, diz ele, haviam adotado a produção orgânica, mas agora provavelmente nunca venderão produtos orgânicos novamente.
Mieko Okubo, a mulher que perdeu o sogro, está tentando continuar. Ela tenta lutar contra o remorso. Mais bitucas de cigarro se acumularam em seu cinzeiro. Ela diz que queria largar o cigarro. “Agora provavelmente nunca o farei”, acrescenta.
Seu marido foi diagnosticado com câncer no pâncreas em outubro passado. Quando o tsunami chegou, ela foi visitá-lo num hospital na costa. Ela viu a onda chegar, e diz que não há palavras para descrever o que viu depois.
Depois daquilo, seu marido foi transferido para o hospital em Niigata, a quatro horas de carro de Iitate. Como resultado, ela não o visita mais com tanta frequência.
Toda vez que ela anda no hospital agora, desliga uma chave em sua cabeça. Seu marido não sabe de nada sobre a evacuação de seu vilarejo e sobre a morte de seu pai. Ela não quer tornar seus últimos dias ainda piores.
Em vez disso, ela fala sobre coisas que não existem mais. Seu marido ainda acredita que Iitate está esperando por ele.

Tradução: Eloise De Vylder

Extraída: UOL Mídia Global

segunda-feira, 14 de março de 2011

Entrevista com Jean Baudrillard

Antiga, mas vale a pena!

Jean Baudrillard: A verdade oblíqua

O pensador que inspirou a trilogia "Matrix" não gosta do filme e acha que a cultura americana impõe padrões banais. Por Luís Antônio Giron, Revista Época, 7 junho 2003


O professor baixo e mal-humorado é hoje uma das figuras mais populares do novo século. O pensador francês Jean Baudrillard, de 74 anos, recusa-se a falar em inglês. Mesmo assim, é tão popular nos Estados Unidos por causa de suas análises sobre a cultura de massa que foi convidado a fazer um show de filosofia em Las Vegas. E seu nome está na boca dos espectadores da trilogia Matrix. No primeiro filme dos irmãos Wachowski, o hacker Neo (Keanu Reeves) guarda seus programas de paraísos artificiais no fundo falso do livro Simulacros e Simulação, de Baudrillard. Keanu leu o livro e costuma mencionar o autor em todas as suas entrevistas sobre Matrix Reloaded, o novo filme da trilogia. Até porque o ensaio sobre como os meios de comunicação de massa produzem a realidade virtual inspirou os diretores de Matrix a criar o roteiro.

Baudrillard não parece ligar para a fama. Ele esteve no Brasil para lançar seu novo livro, Power Inferno (Sulina, 80 páginas, R$ 18), e participar da conferência 'A Subjetividade na Cultura Digital', na Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, onde falou com ÉPOCA. Sempre pautado por assuntos atuais, ele analisa no ensaio os atentados de 11 de setembro de 2001 como um ato simbólico contra o Ocidente. Nesta entrevista, ele fala sobre seu pensamento turboniilista, 11 de setembro e arte. Se a realidade já não existe e vivemos um permanente e conspiratório espetáculo de mídia, como quer Jean Baudrillard, o pensador exerce a função de entertainer às avessas. Ele decreta o fim dos tempos, e todo mundo vibra.

ÉPOCA - Suas idéias demolidoras estão mais em moda do que nunca. O mundo ficou mais parecido com o senhor?

Jean Baudrillard - Não aconteceu nada. O resultado de um consumo rápido e maciço de idéias só pode ser redutor. Há um mal-entendido em relação a meu pensamento. Citam meus conceitos de modo irracional. Hoje o pensamento é tratado de forma irresponsável. Tudo é efeito especial. Veja o conceito de pós-modernidade. Ele não existe, mas o mundo inteiro o usa com a maior familiaridade. Eu próprio sou chamado de 'pós-moderno', o que é um absurdo.

ÉPOCA - Mas pós-modernidade não é um conceito teórico racional?

Baudrillard - A noção de pós-modernidade não passa de uma forma irresponsável de abordagem pseudocientífica dos fenômenos. Trata-se de um sistema de interpretações a partir de uma palavra com crédito ilimitado, que pode ser aplicada a qualquer coisa. Seria piada chamá-la de conceito teórico.

ÉPOCA - Se não é pós-moderno, como o senhor define seu pensamento em poucas palavras? Os críticos o chamam de pensador terrorista, ou niilista irônico.

Baudrillard - Sou um dissidente da verdade. Não creio na idéia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo. Aliás, sou um fotógrafo.

ÉPOCA - Como o senhor explica a espetacularização da realidade?

Baudrillard - Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto. No começo de minha carreira intelectual, nos anos 60, escrevi um ensaio intitulado 'A Economia Política dos Signos', a indústria do espetáculo ainda engatinhava e os signos cumpriam a função simples de substituir objetos reais. Analisei o papel do valor dos signos nas trocas humanas. Atualmente, cada signo está se transformando em um objeto em si mesmo e materializando o fetiche, virou valor de uso e troca a um só tempo. Os signos estão criando novas estruturas diferenciais que ultrapassam qualquer conhecimento atual. Ainda não sabemos onde isso vai dar.

ÉPOCA - A disseminação de signos a despeito dos objetos pode conduzir a civilização à renúncia do saber?

Baudrillard - Alguma coisa se perdeu no meio da história humana recente. O relativismo dos signos resultou em uma espécie de catástrofe simbólica. Amargamos hoje a morte da crítica e das categorias racionais. O pior é que não estamos preparados para enfrentar a nova situação. É necessário construir um pensamento que se organize por deslocamentos, um anti-sistema paradoxal e radicalmente reflexivo que dê conta do mundo sem preconceitos e sem nostalgia da verdade. A questão agora é como podemos ser humanos perante a ascensão incontrolável da tecnologia.

ÉPOCA - Seu raciocínio lembra os dos personagens da trilogia Matrix. O senhor gostou do filme?

Baudrillard - É uma produção divertida, repleta de efeitos especiais, só que muito metafórica. Os irmãos Wachowski são bons no que fazem. Keanu Reeves também tem me citado em muitas ocasiões, só que eu não tenho certeza de que ele captou meu pensamento. O fato, porém, é que Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro filmes como Truman Show e Cidade dos Sonhos, cujos realizadores perceberam que a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente. Nos dois filmes, minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowskis me chamaram para prestar uma assessoria filosófica para Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver com kung fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados para essa atividade.

ÉPOCA - Quanto à arte, o senhor se dedicou a analisar o fenômeno artístico ao longo dos anos. Em que pé se encontra a arte contemporânea?

Baudrillard - A arte se integrou ao ciclo da banalidade. Ela voltou a ser realista, a desejar a restituição da reprodução clássica. A arte quer cumplicidade do público e gozar de um status especial de culto, situação prefigurada nas sinfonias de Gustav Mahler. Claro que há exceções, mas, em geral, os artistas se renderam à realidade tecnológica. Desde os ready-mades de Marcel Duchamp, a importância da arte diminuiu, porque a obra de arte deixou de ter um valor em si. Os signos soterraram a singularidade. Os artistas se submetem a imperativos políticos, e não mais seguem ideais estéticos. A arte já não transforma a realidade e isso é muito grave.

ÉPOCA - Por que o senhor escreveu tanto sobre a cultura americana mas nunca refletiu sobre o Brasil, que o senhor tanto adora visitar?

Baudrillard - Já me cobraram um livro sobre o Brasil. Cito-o em minhas Cool Memories (trabalho no quinto volume) e em outros textos, mas a cultura brasileira é muito complexa para meu alcance teórico. Ela não se enquadra muito em minhas preocupações com a contemporaneidade, não tem nada a ver com a americana, com seus dualismos maniqueístas, um país que se construiu a partir das simulações, um deserto da cultura no qual o vazio é tudo. Os Estados Unidos são o grau zero da cultura, possuem uma sociedade regressiva, primitiva e altamente original em sua vacuidade. No Brasil há leis de sensualidade e de alegria de viver, bem mais complicadas de explicar. No Brasil, vigora o charme.

ÉPOCA - O que o senhor pensa da civilização americana depois dos atentados de 11 de setembro? O mundo mudou mesmo por causa deles?

Baudrillard - Claro que mudou. Nunca mais seremos os mesmos depois da destruição do World Trade Center. Abordo o tema em Power Inferno, uma coletânea de artigos sobre o império americano e a política. Considero os atentados um ato fundador do novo século, um acontecimento simbólico de imensa importância porque de certa forma consagra o império mundial e sua banalidade. A Guerra do Iraque apenas dá seqüência às ações imperiais. Os terroristas que destruíram as torres gêmeas introduziram uma forma alternativa de violência que se dissemina em alta velocidade. A nova modalidade está gerando uma visão de realidade que o homem desconhecia. O terrorismo funda o admirável mundo novo. Bom ou mau, é o que há de novo em filosofia. O terrorismo está alterando a realidade e a visão de mundo. Para lidar com um fato de tamanha envergadura, precisamos assimilar suas lições por meio do pensamento.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Miséria no nordeste

Ela está atrás de um muro. Desce e corre quando percebe o carro se aproximando. Ela me vê, enxerga a máquina fotográfica e passa a mão nos cabelos emaranhados e encaracolados. Segura-os por alguns instantes e os solta. Sai, caminha em direção a mãe que recepciona um homem que desce do mesmo carro onde eu estava. Ele tem sacolas nas mãos. Ela então me olha outra vez, levanta a alça da blusa azul desbotada e muito grande para o seu tamanho. Fixa o olhar assim que percebe que seguiremos e ela permanecerá ali. E, de longe, vejo-a sumir.

Esta cena se repete outras vezes por mais alguns quilômetros. Crianças saem de casa correndo quando percebem que o carro que leva seus pais ao centro das pequenas cidades acaba de trazê-los de volta. E eles quando chegam, quase sempre, têm sacolas nas mãos. Algumas casas são de barro batido. De fora, pela janela, enxerga-se o que seria a sala de estar. Dentro dela, uma rede de um canto ao outro. Em outras, uma rede e uma tv. Segundo os próprios moradores destas casas, as coisas melhoraram. E hoje, eles conseguem ter uma vida mais digna.

Nos últimos anos, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a taxa de pobreza no Brasil reduziu 0,9% por ano, nos governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva. As perspectivas do IPEA é que, até 2016, o país possa ter um índice próximo à de países ricos, caso cada estado matenha um ritmo de crescimento econômico diferenciado na redução da miséria.

De acordo com a ONG ActionAid, que analisa os esforços de 28 países para combater o problema, o Brasil, nos últimos dois anos, liderou o ranking de progresso na luta contra a pobreza. Segundo os organizadores, a fome foi realmente prioridade no país.

No entanto, ao percorrer alguns estados do nordeste brasileiro, custa-se a acreditar que isso realmente possa acontecer em tão pouco tempo.

O Maranhão, hoje governado por Roseana Sarney (PMDB) pela quarta vez, esteve durante muitos anos em primeiro lugar no ranking dos estados mais pobres do Brasil. Atualmente, perde apenas para Alagoas, 27,2% dos maranhenses vivem em extrema pobreza. Piauí é o terceiro, e Ceará ocupa a quarta posição.

Segundo o IPEA, em 1995, período referente aos governos de Edison Lobão e Roseana Sarney, conhecida como "a década perdida", o Maranhão tinha a maior taxa de pobreza absoluta, 77,8% seguido por Piauí com 75,7% e Ceará com 70,3%. A redução no indíce de extrema pobreza ocorreu entre os anos de 2003 e 2008, quando o Maranhão era governado por José Reinaldo Tavares.

Além de estarem nas últimas posições do ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), Alagoas e Maranhão têm o pior PIB per capita do país. Enquanto que seus governadores, respectivamente, Teotônio Vilela Filho (PSDB) e Roseana, são os mais ricos de todos os estados brasileiros.

Não é preciso procurar. Nas estradas, do Maranhão ao Ceará, ao passar por cidades como Barreirinhas, Paulino Neves, Tutóia e Parnaíba, no Piauí, percebe-se que a pobreza está longe de ser combatida. As pessoas vivem em condições precárias. O que se pensa ver apenas nos filmes, lá, se vê ao vivo.

domingo, 30 de janeiro de 2011

A "Cidade dos Azulejos" está em ruínas

O Centro Histórico de São Luís do Maranhão, eleita em 2009 a Capital Brasileira da Cultura, está em decadência. Apesar de alguns poucos prédios terem sido reformados e outros ainda estarem em processo de restauração, grandes sobrados e casarões estão praticamente destruídos, abandonados. O mal cheiro e a sujeira estão por toda parte. À noite, moradores e turistas podem ser vistos, no máximo, até às 22h. Depois disso as ruas ficam desertas. Segundo moradores da região, há um grande número de usuários de crack e outras drogas, além da prostituição, que é intensa durante toda a madrugada.

Apesar disso, de acordo com uma pesquisa realizada pelo São Luís Convention & Visitors Bureau (SLC&VB), em parceria com a Faculdade São Luís, entre junho e novembro de 2009, o Centro Histórico ainda é o local mais visitado pelos turistas. Dos 149 entrevistados, 35% o escolheram, em seguida ficaram as praias (30%) e os bares da lagoa (21,25%).

Fundada em 1612, a Cidade dos Azulejos, como é conhecida, e principalmente a região central, traz características dos povos (nativos, franceses, portugueses e africanos) formadores de sua identidade. Nas estreitas ruas, há uma grande quantidade de casas de artesanato. Nelas, chamam atenção as variadas cores, no entanto, é mais visível as paredes descascadas, que escondem, mas nem tanto, as antigas pinturas. Cerâmicas desenhadas e pintadas com muitas cores, algumas com grandes rachaduras, que deformam as figuras e dificultam a compreensão de cada uma.

Na Praça Dom Pedro II, a sensação é de estar na Praça da Sé, em São Paulo. Muitos mendigos, alguns deitados e outros pedindo um trocado. Além deles, há comerciantes por toda a parte. Gritos e cantorias de diversos estilos. O mal cheiro é absurdamente forte. Mas é notável que os moradores daquele lugar já não percebem isso. O lixo e a sujeira passam despercebidos, assim como os buracos nas calçadas, que as pessoas têm de pular. É provável que os responsáveis por aquela cidade também pulam esses lugares na hora de investir em infraestrutura, pois a situação no Centro é muito mais do que precária.

Em junho de 2010, vereadores de oposição e aliados do prefeito João Castelo (PSDB) cogitaram a possibilidade de um impeachment para retirar o tucano do poder. Um dos principais motivos era a insatisfação da sociedade diante a má administração. Neste ano, a fim de melhorar a situação urbanística, cultural, funcional e social no patrimônio histórico, João Castelo firmou, na última semana de janeiro, um termo de parceria com empresários da capital maranhense, é a chamada “Aliança pelo Centro Histórico”. De imediato, haverá equipes de limpeza permanente. As obras de revitalização devem ser realizadas inicialmente nas principais ruas do Centro, onde há um fluxo maior de turistas.

Atualmente, as reformas são vistas apenas em hotéis e pousadas. São poucos os trabalhadores no alto de andaimes. Esses poucos tentam, a todo custo, recuperar a história de cada prédio. São nesses recuperados que se vê a beleza do patrimônio arquitetônico, que não são suntuosas construções com detalhes em ouro, mas a simplicidade da uniformidade das casas.

Nas ruas Boaventura, da Estrela, do Comércio e Portugal, lado a lado, dentro das paredes com cores descaracterizadas e azulejos quebrados, vendedores montaram suas lojas e nelas vendem artigos típicos, como bolsas, tapetes e chinelos de fibra de buriti, árvore típica do nordeste brasileiro. É o que restam aos turistas de diversas regiões, principalmente aos "gringos", que desejam apreciar ou comprar peças de azulejos (inteiros) coloridos.

Ao chegar à cidade, a primeira impressão não é das melhores e, com o passar dos dias, ao visitar os pontos turísticos principais do centro, isso se confirma. A região sofre com o descaso e o abandono do poder público.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Dilma Presidente

Hoje, no primeiro dia de 2011, uma mulher assume a Presidência da República do Brasil, Dilma Rousseff. Durante toda a campanha em 2010, ela estabeleceu como meta em seu governo aquilo que também foi prioridade para o, agora ex-Presidente, Lula, a erradicação da pobreza.

18 milhões. Este é o número de pessoas que Dilma tem como desafio retirar da miséria. É triste pensar que ainda existe uma quantidade tão grande de brasileiros nesta classificação. Lula fez muito em seu governo. Nele, houve a maior ascensão social de todos os tempos. Mas não o suficiente para que possamos dizer que, enfim, somos um país de igualdade. Longe disso. Talvez isso realmente nunca aconteça. Este pensamento é utópico, simplesmente porque o nosso sistema, e o do mundo inteiro, não permite. O novo governo deve entender que diminuir a fome, em um país em que a previsão para a economia é crescer cada vez mais, deve ser muito mais do que uma simples meta.


Imagem: Agência Brasil - Chegam as primeiras pessoas para a cerimônia de posse da presidenta eleita

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"Ética no jornalismo"

Este é o título de um livro que acabei de ler, de Rogério Christofoletti. Não é o melhor que já li, aliás, esperava mais. Busquei nele algumas coisas que não encontrei. O autor destaca aquilo que é discussão em todo debate a respeito do que é ser jornalista. E isso, podemos encontrar em muitos livros. No entanto, isso não quer dizer que não o recomendo. Pelo contrário, é ideal para estudantes de jornalismo interessados no assunto. O que ele expõe é aquilo que nunca é demais reforçar - como devem ser as atitudes de um bom profissional. E ao final, gostei das recomendações do autor e das perguntas que ele nos deixa. Perguntas que todo jornalista deve se fazer durante todos os anos na profissão.

10 questões para fazer pensar, por Rogério Christofoletti:

1. É possível fazer colunismo social sem promiscuidade com as fontes?

2. O que pensar de jornalistas que combinam manchetes, após as entrevistas coletivas?

3. Até que ponto a tecnologia é uma aliada de repórteres e editores?

4. Jornalistas dos cadernos de veículos conseguem manter independência editorial após viajar à custa de uma montadora para uma feira internacional?

5. É certo fazer reportagens sobre determinados assuntos apenas para disputar prêmios de jornalismo?

6. Quando o jornalista pode entrevistar parentes ou amigos?

7. Como relatar casos de violência, discriminação, sequestros e suicídios sem contribuir para a estigmatização das pessoas envolvidas?

8. O jornalista pode acumular funções, sendo assessor de imprensa de manhã e repórter à tarde?
9. Onde está o centro da gravidade moral do jornalismo?

10. Até onde se pode ir para conseguir a manchete do dia?

O autor também dá dicas de leitura:

- Sobre ética e imprensa - Eugênio Bucci
- O papel do jornal - Alberto Dines
- Procura-se ética no jornalismo - H. Eugene Goodwin
- Elementos do jornalismo - Bill Kovach e Tom Rosenstiel
- Jornalismo na era virtual - Bernardo Kucinski
- Ética - Organizado por Adauto Novaes
- Pequeno tratado das grandes virtudes - André Comte-Sponville
- A Arte de fazer um jornal diário - Ricardo Noblat
- Jornalismo político - Franklin Martins
- Guia para edição jornalística - Luíz Costa Pereira Junior
- Jornalismo, ética e liberdade - Francisco José Karam
- Deus é inocente, a imprensa, não - Carlos Dorneles
- O homem secreto - Bob Woodward
- Media Ethics: cases and moral reasoning - Clifford Christians
- El zumbido y el moscardón - Javier Darío Restrepo
- A tirania da comunicação - Ignácio Ramonet
- Os novos cães de guarda - Serge Halimi
- Watchdog journalism in South America - Silvio Waisbord
- O arsenal da democracia - Claude-Jean Bertrand
- Os jornais podem desaparecer? - Philip Meyer

Tempo de renovação...

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Do Balaio do Kotsho

Falta novidade no governo de Dilma

Tudo bem que em time que está ganhando não se mexe, como diz o famoso ditado, mas o jogo político é um pouco mais complicado do que o futebol

Ricardo Kotscho


Estamos todos de acordo que, ao eleger Dilma Rousseff nas eleições de outubro, os brasileiros optaram pela continuidade do governo Lula, que chega ao final com inéditos índices de aprovação em todas as pesquisas. Também é verdade, porém, que toda troca de governo gera grandes expectativas, renova esperanças, sugere novos caminhos e novas caras na condução do país.

Pelo que vimos até agora, exatamente a um mês da posse da presidente eleita, não há grandes surpresas nem novidades na indicação dos nomes já confirmados para o governo de Dilma. Tudo bem que em time que está ganhando não se mexe, mas o jogo político é um pouco mais complicado do que o futebol.

Todos sabemos, de outro lado, que em alguns setores do governo as coisas já não vinham funcionando bem, em especial na área de serviços públicos, exigindo mudanças de métodos e no comando das gestões. Até no futebol, quando há troca de técnico, muda-se também o jeito de jogar e a escalação do time

Não é porque mais de 80% da população apóia Lula que a população está satisfeita com o trabalho do governo nas áreas de saúde, segurança, transportes, educação e saneamento, por exemplo, como demonstram as mesmas pesquisas.

Nem se trata de saber se é certo manter ou não os mesmos nomes ou fazer uma troca de cadeiras de ministros, mas de estabelecer um critério para a população saber, desde o primeiro dia, que o governo brasileiro está sob nova administração. Mais do que nomes, são sinais simbólicos que marcam a passagem de um governo para outro.

Embora tenha 37 cargos ministeriais para distribuir entre os aliados e tentar agradar a todos os partidos, às lideranças, tendências e bancadas dos partidos, mais os governadores e os interesses regionais, sem falar nas sugestões do presidente Lula - ou seja, um quebra-cabeças difícil de montar, já que a oferta é maior do que a demanda e as contas não fecham - é vital para Dilma reservar um espaço para ela mesma e surpreender a freguesia com algo ou alguém que ninguém esperava.

Oito anos atrás, por exemplo, nesta mesma época, o então candidato eleito Lula surpreendeu o PT e o mundo ao nomear o médico sanitarista Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda e o banqueiro tucano Henrique Meirelles para o Banco Central. Não parou por aí. Procurou saber quem eram os melhores profissionais para as áreas de Agricultura e Comércio Exterior, respectivamente Roberto Rodrigues e Luiz Furlan, e não se preocupou em saber que ambos tinham acabado de apoiar ostensivamente a campanha do seu adversário, José Serra. Os dois foram nomeados ministros do governo do PT.

Ninguém está sugerindo que Dilma vá recrutar quadros no PSDB, no DEM e no PPS, até porque lá parecem estar em falta, mas ela poderia abrir seu olhar para a sociedade e pensar em perfis como o de Drauzio Varella, para a Saúde, e de Danilo Miranda, para a Cultura, há anos o grande animador e gestor do SESC de São Paulo. Nem sei se eles pertencem a algum partido.

É verdade que já tem paulista demais nesta história, e os aliados nordestinos, os grandes vitoriosos desta eleição, têm todo o direito de reclamar e reivindicar mais espaço no governo da presidente eleita. Certamente é danado de grande o desafio colocado para Dilma. Mas vai ficar maior ainda se continuar esta queda-de-braço entre PT e PMDB para ver quem fica com o maior naco da Esplanada.

Seria bom não esquecer o que aconteceu com o PMDB em dezembro de 2002, quando o partidão também não se contentou com os ministérios que lhe ofereceram, e bateu o pé para ficar também com o de Minas e Energia. Irritado com a ganância, Lula mandou José Dirceu, o coordenador político da transição, dizer ao PMDB que então o partido não ficaria mais com ministério nenhum. E deu no que deu: a grande crise política de 2005. Como se costuma dizer, é impossível governar o país sem o PMDB, e é muito difícil governar com ele.

Custa acreditar que um partido grande como o PMDB não tenha mais ninguém a oferecer ao país além de Moreira Franco e Edison Lobão. Parceiro na vitória, o partido do vice Michel Temer agora também é responsável pelo governo e precisa conter a sua gula para não ser um permanente gerador de crises, assim como o PT precisa se convencer de que não pode ser um partido de oposição no governo.

O problema não é saber se o presidente Lula está dando ou não muito palpite no governo da companheira Dilma, mas se a presidente eleita será capaz de indicar ao país os melhores nomes para cada função, tanto do ponto de vista político como profissional, independentemente de serem homens ou mulheres, brancos ou negros, altos ou baixos. Que sejam brasileiros de qualidades incontestáveis, acima de qualquer suspeita. Para isso, ela precisa começar a apresentar alguma novidade e, em algum momento, surpreender o distinto público para mostrar a que veio. Ainda é tempo.

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/balaio-do-kotscho/noticias/1979/

sábado, 20 de novembro de 2010

A la Coben

Livros de jornalismo, aqui em casa, estão espalhados por toda parte. Jornais, revistas, textos diversos, etc, etc... O assunto, claro, é muito mais do que uma preferência, é uma paixão.

Há alguns dias, alías, há mais de dois meses uma professora da faculdade deu uma lista de livros para que escolhêssemos um, lêssemos e então, escreveríamos sobre ele. Dois meses se passaram. Uma semana para a atividade em sala sobre o livro e eu tinha decidido não ler. "Desaparecido para Sempre", esse é o título, de Harlan Coben. Eu não tinha dúvida, não iria gostar! Mas aí vem uma amiga alí, outro amigo aqui... e a minha velha preocupação de não deixar de fazer alguma coisa.

De repente, saio do trabalho, embarco na Vila Madalena. Não faço como de costume, até o Alto do Ipiranga, mas desço no Paraíso, aquele inferno de estação que, simplesmente, odeio. Linha vermelha e estou na Sé. Centro, não é possível não encontrar esse tal livro. Vários sebos e nada. O grande Messias (não ele, mas um de seus funcionários) me diz: "Ah, não temos porque está entre os mais procurados, vende rápido". Quase disse para ele: tem certeza que estamos falando do mesmo livro? Comprei outros títulos e saí. Cada vez mais tinha certeza de que realmente não conseguiria ler esse tal Coben. Perto do metrô, uma Saraiva e eu penso: só falta ter aqui, e eu terei que pagar caro em um livro que sei que não vou gostar. É, e tinha mesmo. O operador do caixa me disse: "esse é bom, né? está vendendo muito" e eu: ah, não sei, estou sendo obrigada a ler. Ele fez cara de espanto, e eu tentei minimizar: é que não gosto do gênero. Paguei e saí. Duas baldiações e, enfim, em casa. No caminho, um dos livros que havia acabado de comprar, sobre a nova ortografia, chamou mais a minha atenção do que "Desaparecido para Sempre". É... exigências da profissão. O que conhecia do livro era tudo que estava na sinopse. Romance policial e suspense. Cheguei em casa e dormi. Dois dias depois, dois para o tal trabalho. Era hora de começar a leitura.

Uma página, duas, três...
Estranhamente comecei a ler caminhando na rua, de pé no ônibus, quase dormindo no metrô, às 6h. Na ida e volta da faculdade, nas aulas chatas e até mesmo ficar fora de algumas. Enfim, toda aquela história de que não ia gostar foi puro pré-conceito. Sentia raiva quando descer do ônibus ou sair do metrô me fazia parar. Daí a ideia de ler andando...

Surpresa, choque e muitas reviravoltas. É uma eletrizante narração. O autor envolve profundamente o leitor. Pesquisei e descobri que os livros de Coben está no topo da lista dos mais lidos.

No suspense, Will Klien namora Sheila Rogers, mas não sabe nada sobre o seu passado. Não importa, ele a ama. Seu irmão Ken está desaparecido desde o assassinato de sua ex-namorada, Jullie Miller. Alguns acreditam que ele esteja morto. "Três dias antes de morrer, minha mãe me disse (...) - Ele está vivo. (...) Não tinha dúvida, o homem na fotografia era meu irmão, Ken."

Ken é o principal suspeito do crime. Onze anos depois, após a morte de sua mãe, Klein passa a investigar o que teria realmente acontecido. Ao lado do amigo Squares, ele faz descobertas inacreditáveis sobre o passado de seu irmão, dos amigos dele e de Sheila, sua namorada.

Surpreendentes revelações a cada página, e a sensação de estar cada vez mais perto da verdade. Teria Ken matado Jullie? Quais os segredos de Sheila? Ela é encontrada morta e a partir daí Klein começa a descobrir seu possível envolvimento na morte de Jullie e em outros diversos casos, como prostituição e tráfico de drogas.

"Tive a mesma experiência no enterro de minha mãe, aquela esperança de que, de algum modo, tudo não teria passado de um engano, (...) aquele corpo não seria de Sheila. (...) E foi então que a verdade se revelou para mim. (...) Sheila Rogers estava realmente morta. (...) Mas a mulher que eu amava (...) não era Sheila Rogers."

O suspense cresce a todo momento. Até o desfecho, muitas surpresas e choques a cada nova informação.

Magnificamente, Coben coloca o leitor na posição de investigador do crime. Cada fato revelado é uma peça do quebra-cabeça que está sendo montado. Não importa a preferência do leitor. Até o mais experiente deles é capaz de se envolver na narrativa de Coben.


Imagem: Google

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Abandono

Não esqueci do Reticências. Não mesmo! A culpa foi dos acontecimentos dos últimos dias...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Editorial IstoÉ

"ONDE ESTÃO AS PROPOSTAS?"

Carlos José Marques, diretor editorial

É o que todo mundo quer saber nesta reta final da campanha presidencial. A expectativa de que o segundo turno das eleições se convertesse numa oportunidade única de entender como serão os eventuais governos dos dois postulantes ao cargo foi pouco a pouco caindo por terra. Na medida em que os temas levantados – tanto nos horários eleitorais dos candidatos como nas declarações públicas e no confronto na tevê – partiram para a linha do bateu-levou, descendo ao fundo do poço da baixaria em questões oportunistas como fé e aborto, ficou claro que o caminho era o da pobreza do debate programático. A tática escolhida pelos contendedores impõe ao eleitor grandes prejuízos. É ele quem, em última instância, ficará desprovido de informações vitais na hora de optar por esse ou aquele presidenciável a merecer o seu voto. Como avaliar adequadamente as plataformas de gestão e a qualidade das propostas contidas nas duas alternativas de governo em disputa? Que rumos estão reservados para os próximos quatro anos de um país que, nos últimos tempos, entrou finalmente no trilho do desenvolvimento e vem oferecendo taxas recorde de crescimento econômico, de abertura de postos de trabalho e de melhoria geral da vida de milhões de brasileiros? Que garantias estão sendo dadas de que essa trajetória de avanços seguirá em frente com um ou outro dos aspirantes ao posto? A resposta está distorcida pela onda de boatos e promessas populistas. Falsas acusações, envolvendo os dois adversários, tomaram a internet. Uma hipocrisia dogmática sobre assuntos que logo após as eleições sairão certamente de pauta, como normalmente acontece, virou base de campanha dos marqueteiros. Onde estão as saídas para medidas essenciais como a revisão dos juros, reforma tributária, política cambial e a inserção do Brasil no clube das potências do comércio global? Ninguém sabe, ninguém viu. A grande discussão que restou aos candidatos é sobre o problema do aborto, que, para além das calorosas opiniões, se impõe antes de tudo como uma realidade dramática a afligir inúmeras famílias no País. Neste pormenor, os dois adversários ficaram reféns de uma espécie de chantagem em que a crença deve sublimar os fatos. Privatizar ou não é outro falso dilema, equivocadamente lançado na contenda. O Brasil já andou nessa direção, com privatizações tão oportunas como necessárias – sem as quais o cidadão poderia estar vivendo ainda no tempo das cavernas, caso por exemplo da telefonia. Lamentável é um embate no qual o que mais importa dá lugar a proselitismos.

N° Edição: 2136 20.Out.10

Certas palavras...

“O conhecimento não é sabedoria!
A aprendizagem só em si não é sabedoria.
A sabedoria é a aplicação do conhecimento e dos fatos.
A sabedoria é dar-se conta de que você não sabe nada.
A sabedoria é dizer: minha mente está aberta.
Onde quer que eu esteja, estou apenas começando.
Há cem vezes mais coisas a perceber do que o que conheço.
Isso é o princípio da sabedoria.”

Felice Leo Buscaglia


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